terça-feira, 27 de outubro de 2020

DESCARTE

                                                       ( by Margherita Vitagliano )



 
                                             Sem encontrar frestas
                                             que lhe trouxessem o sol,
                                             e já desbotado pelo
                                             rigoroso inverno dos anos,
                                            desaprendeu o que era sorrir
 
                                            As antigas promessas foram,
                                            aos poucos, se desvaindo
                                            em episódios sórdidos...
                                            Descalçado de sonhos,
                                            teve os perfis sensitivos
                                            prejudicados

                                           Nada mais do perfume das flores,
                                           do cheiro da terra molhada,
                                           do toque, de um carinho no rosto,
                                           do gosto de um apertado abraço
                                           da sensação de ser amado
 
                                           Sobrou-lhe, tão somente,
                                           a roupagem da solidão,
                                           que  agora denominavam
                                           debilidade senil

                                           Mas os olhos,
                                           ah! os olhos,
                                           só mostravam saudade!


                                                                Marilene



40 comentários:

  1. Os olhos sempre mostram as cores da saudade...que bom ver os grandes de sempre firmes na poesia! Beijão Marilene.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Ives!!! Quanto tempo! É uma prazer recebê-lo. Obrigada! Abraço.

      Excluir
  2. Um poema belíssima a descrever a velhice. O que dizem os olhos senão
    que a vida por eles passou e, agora, só um toque de asa lhes dá a sensação
    que ainda recordam o passado.
    Boa e feliz semana
    Abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Luís, os olhos realmente dizem muito, mas para quem ainda lhes dedica outro olhar. Obrigada. Abraço.

      Excluir
  3. Tristeza em cada verso,Marilene! Linda poesia e essa saudade de viver, de ver, tão bem expressa! LINDA! beijos, chica

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Há certa melancolia nessa fase da vida, uma vontade de ainda ser importante, ainda ter o que oferecer. Obrigada, querida! Bjs.

      Excluir
  4. Lindo... o caminho de todos nós, ou de quase todos nós, uns morrem tão jovens, isso é ainda mais triste. Parabéns! Show!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Carlos, há caminhos e caminhos. Há o que se sentem acarinhados até o fim de seus dias. E há os que são descartados como objetos sem serventia. Triste. Bjs.

      Excluir
  5. Nossa!! O título do teu belíssimo poema já é uma pancada real, tão presente em tantas vidas! Descarte: triste, muito! O terceiro verso é arrasador, chocante.
    Solidão é tudo isso, uma sensação infinita de abandono.
    Amiga, você é demais, aplausos sempre pra você!!!
    Beijo, uma boa semana!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tais, esse abandono me choca tanto! Muito são descartados, literalmente. Ninguém os vai visitar, ninguém os quer ouvir... Quando mais precisam do que ofereceram a vida inteira, nada recebem. Muito obrigada, amiga, pelo carinho e seu comentário. Bjs.

      Excluir
  6. Tão belo de tão triste e real. Será o nosso caminho? Poderemos fazê-lo diferente?... Não sei, receio essa tristeza.

    Beijinhos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fá, podemos estar presentes. E isso já é, além de presente, uma forma de agradecimento pelo muito que nos foi oferecido. Mesmo as pessoas extremamente independentes chegam a esse final. Bom se sempre tivessem o amor por perto. Bjs.

      Excluir
  7. O título pode quase confundir se com o nome e o pensamento do filósofo
    A racionalidade, ou recusa dela, como ponte para a poesia
    😊

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. René Descartes está longe dos meus pensamentos rss. Descartar um idoso é dos mais tristes atos que posso imaginar. Abraço.

      Excluir
    2. Foi uma hipótese atirada para o ar
      E falhada
      😉
      Abraço

      Excluir
  8. Magoa por de mais esta realidade da condição humana...
    Qualquer que seja o Espírito Criador, errou muito.
    Após uma vida, a partida deveria ser digna e meritória.

    Um poema muito expressivo, belo e pertinente, visto
    hoje ser o Dia Mundial da Terceira Idade.

    Tudo pelo melhor, querida Marilene. Beijos
    ~~~~~~~~~~~

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A velhice pode ser feliz, vivida ao lado dos entes queridos. Mas é dolorosa, quando existe o abandono. Majo, foi coincidência a abordagem, pois desconhecia a comemoração. Ontem, do nada, os versos me vieram à mente e os publiquei. É uma situação que muito me entristece. Bjs.

      Excluir
  9. Marilene
    Um poema que tem tanto de belo como de triste.
    A palavra descarte, é o que mais se vê com a velhice.
    Eu saio daqui com o coraçao pequenino e demasiado comovida com o teor do poema.
    Beijinhos
    :(

    ResponderExcluir
  10. Marilene...Não sei quem foi tua inspiração , mas tocaste fundo em mim com tua poesia...e..
    .vida que segue.Como é bom ler e metabolizar os versos de uma poeta tão sensível. Bjs
    .

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muitíssimo obrigada pelo carinho, Claudete! Não sei porque, mas muito me tocam as questões relacionadas com o abandono. Bjs.

      Excluir
  11. Muito bom ler sua poesia !
    E os sentimentos coincidem com o que realmente vivemos quando se fala em solidão e partidas.
    Muito comovente, Mari e uma constatação de que acontece todo dia.
    Meu abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lis, pessoas jovens superam adversidades e até abandono. O mesmo não acontece com quem espera receber, um pouco de carinho, na velhice. Bjs.

      Excluir
  12. Só e somente só a poesia pode transitar em duas vidas em dois sentimentos aqui tão belamente poetizado. Solidão é fogo e este poema nos lê.
    Maravilha Lena com sua arte tão bela profunda a nos inspirar e ler.
    Carinhoso abraço amiga.
    Belo voo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Poetamigo, sempre me encanta com seus estimulantes comentários. Muito obrigada. Abraço.

      Excluir
  13. a vida é assim...um dia somos jovens e vivemos todas as emoções que sempre estão disponíveis.Depois sem ao menos perceber a paisagem vai mudando e com ela os personagens, alguns novos, outros mudam , outros desaparecem e o personagem em tela vai observando, refletindo sobre as novas histórias que se vão contando...depois de algum tempo , a foto esmaecida, amarelada , fora do contexto vai virando história, Tudo muito triste e melancólico e a vida dói! Sempre uma reflexão maravilhosa Marilene na sua poesia. Obrigada
    Um abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A vida é um caminho estranho. Quando mais se precisa de afeto, os que o receberam durante tantos anos costumam se afastar, descartando o idoso. Uma tristeza. muito obrigada, querida, por seu lúcido comentário. Bjs.

      Excluir
  14. Versos que nos levam a pensar profundamente.

    ResponderExcluir
  15. A você, que dança com as
    palavras, o meu boa noite.
    Vou dormir ao som da sua
    poesia.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
  16. Nossa história é composta de episódios e cenários, uns alegres, outros nem tanto, quando menos esperamos o livro da vida está recheado de lembranças. penso que seria um tanto sem sal não termos história pra contar.

    Você realmente é uma alfaiate das letras querida Marilene. Receba meu aplausos.

    Bom dia e bom findi!
    Bjss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Diná, querida, obrigada pelas palavras de estímulo. Bjs.

      Excluir
  17. Sensibilidade em estado puro.
    Muito bom, Marilene!

    Um abraço :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pela presença e comentário. Sempre me alegra. Abraço.

      Excluir
  18. Olá, Marilene, a poesia é capaz destes milagres, contam tristes histórias, falam de almas sofridas, cantam os cantos da juventude e falam das névoas que acompanham a velhice. A poesia, Marilene, tu sabes bem, contam muitas histórias sem que se precise escrever muito. Parabéns!
    Um bom feriadão, abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. "As névoas que acompanham a velhice". Gostei imenso de sua colocação. Muitíssimo obrigada por sua presença e comentário. Ótimo feriado para você e Tais. Abraço.

      Excluir
  19. Olá, Marilene

    Impressionante como aborda esta temática. Não receber amor, desabituar-se de sorrir, cria uma habituação de tal forma impressiva que chega um momento na vida em que já não é possível voltar a momentos de alegria. O abandono gera a Solidão. Um dos males mais gritantes da nossa sociedade.

    Gostei muito do seu Poema, minha amiga. Aliás, penso que é um dom escrever assim.

    Beijo
    Olinda

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que verdadeiro comentário, Olinda! A solidão na velhice é algo que ninguém deveria sentir. Muito obrigada por suas palavras e seu carinho. Bjs.

      Excluir